
HAMLET
Um diálogo com a arte teatral
(Texto "pensado" durante as aulas de Teoria Literária que tive a oportunidade de ministrar na UPF, em parceria com o Dr. Miguel R., e publicado no Jornal Dom Dia - 12/06)
Fabiano Tadeu Grazioli[1]
A obra Estética Teatral – Textos de Platão a Brecht (BORIE, M. ROUGEMONT, M. SCHERER, J. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004), é uma coletânea de textos teóricos sobre o teatro, retirados de todas as épocas e civilizações que nos legaram propostas úteis a respeito das questões teatrais. Nela encontramos uma referência ao dramaturgo William Shakespeare (1564-1616) que, embora não tenha deixado textos teóricos sobre o teatro, inseriu idéias e reflexões, a respeito desta arte, em diversos de seus textos teatrais.
Um desses textos é a peça Hamlet, príncipe da Dinamarca, escrita entre 1600 e 1602 e, seguramente, a tragédia de Shakespeare mais representada em todos os tempos. Não fossem as incontáveis montagens que o texto já teve, não apenas no teatro, mas no cinema, Hamlet é, ainda, o texto literário que mais foi interpretado, dos mais diversos modos e nas mais variadas áreas do conhecimento humano, como a psicologia, a sociologia, as ciências políticas, entre outras.
Os principais escritores e pensadores dos quatro séculos mais recentes deixaram suas impressões a respeito da história do infeliz príncipe da Dinamarca. A cena da peça que remete o leitor ou espectador à arte dramática é a segunda do segundo ato, onde Shakespeare usa o personagem Hamlet como diretor de cena e, por meio dele, transmite sua própria visão da arte de representar, na forma de “recado” aos atores, o qual nos serve até hoje.
A pedido de Hamlet, uma troupe, que era o “mambembe” da época, irá encenar, na cena seguinte, uma peça escrita pelo próprio Hamlet, denunciando o assassinato de seu pai. A seguir, apresentamos alguns fragmentos da cena onde Hamlet combina com os referidos atores os detalhes da encenação:
Entram Hamlet e alguns atores.
HAMLET: Tem a bondade de dizer aquele trecho do jeito que eu ensinei, com naturalidade. Se encheres a boca, como costumam fazer muitos dos nossos atores, preferira ouvir os meus versos recitados pelo pregoeiro público. Não te ponhas a serrar o ar com as mãos, desta maneira; sê temperado nos gestos, por que até mesmo na torrente e na tempestade, direi melhor, no turbilhão das paixões, é de mister moderação para torná-las maleáveis. Oh! Dói-me até ao fundo da alma ver um latagão de cabeleira reduzir a frangalhos uma paixão, a verdadeiros trapos, trovejar no ouvido dos assistentes, que, na maioria, só apreciam barulho e pantomima sem significado. Dá gana de açoitar o indivíduo que se põe a exagerar no papel de Termagante e que pretende ser mais Herodes do que ele próprio. Por favor, evita isso.
PRIMEIRO ATOR: Vossa Alteza pode ficar tranqüilo.
HAMLET: Também não é preciso ser mole demais; que a discrição te sirva de guia; acomoda o gesto à palavra e a palavra ao gesto, tendo sempre em mira não ultrapassar a modéstia da natureza, por que os exageros são contrários aos propósitos da representação, cuja finalidade sempre foi, e continuará sendo, como que apresentar o espelho à natureza, mostrar à virtude suas próprias feições, à ignomínia sua imagem e ao corpo e idade do tempo a impressão de sua forma. O exagero ou o descuido, no ato de representar, pode provocar riso aos ignorantes, mas causam enfado às pessoas judiciosas, cuja censura deve pesar mais em tua apreciação do que os aplausos de quantos enchem o teatro. Oh! Já vi serem calorosamente elogiados atores que, para falar com certa irreverência, nem na voz, nem no porte mostravam nada de cristãos, ou de pagãos, ou de homens sequer, e que de tal forma rugiam e se pavoneavam, que eu ficava a imaginar terem sido eles criados por algum aprendiz da natureza, e pessimamente criados, tão abominável era a maneira por que imitavam a humanidade.
PRIMEIRO ATOR: Quero crer que entre nós tudo isso está bem modificado.
HAMLET: Faze uma reforma radical! Que os truões não digam mais do que o que lhes compete, pois há deles que vão a ponto de rir, somente para provocarem riso aos parvos, até mesmo em passagens com algo merecedor de atenção. É vergonhoso, sobre revelar ambição estúpida por parte de quem se vale de semelhante recurso. Vai aprontar-te. (http://virtualbooks.terra.com.br, acesso em 06/11/06).
Hamlet, nesta cena, ressalta as orientações que julga fundamentais para a interpretação satisfatória do texto teatral. O equilíbrio entre a expressão corporal e vocal, do mesmo modo que a interpretação realista, muito próxima da personagem, e a situação em que ela está envolvida, ao contrário de ser exagerada ou modesta demais, são assinaladas como princípios da encenação teatral. Trata-se de informações que, dependendo do estilo de interpretação em questão, continuam tendo significado e importância até os dias atuais.
O trânsito do personagem Hamlet pelas instâncias da arte cênica pode ser entendido como um reflexo da inserção de seu criador por distintas interfaces da linguagem teatral. A importância de Shakespeare na cultura universal está relacionada à sua dramaturgia, mas sua carreira de escritor iniciou em paralelo a de ator. Esse fato evidencia a preocupação que tinha com a encenação e revela um dramaturgo conhecedor desta arte. Além disso, a presença do grupo de artistas itinerantes no El-senhor (castelo da Dinamarca) assinala um fato corriqueiro na vida dos artistas da Companhia de Carmelo, grupo teatral que Shakespeare integrava, que era a realização de turnês habituais pelo interior de Londres.
[1] Mestrando em Letras – Leitura e formação do leitor (Universidade de Passo Fundo – UPF), Bolsista da CAPES - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. Diretor de teatro.