12/29/2006



Esse filme é minha sugestão de cinema.

Uma jovem de sensibilidade aguçada e com a mente fragilizada precisa lidar com a agitada vida de São Paulo, até se envolver em um crime. Com Guta Stresser, Myriam Muniz e Sabrina Greve.


Ficha Técnica

Título Original: Nina
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 85 minutos
Ano de Lançamento (Brasil): 2004
Site Oficial: www.ninaofilme.com.br
Estúdio: Gullane Filmes
Distribuição: Columbia TriStar do Brasil
Direção: Heitor Dhalia
Roteiro: Marçal Aquino e Heitor Dhalia
Produção: Caio Gullane e Fabiano Gullane
Música: Antônio Pinto
Fotografia: José Roberto Eliezer
Direção de Arte: Akira Goto e Guta Carvalho
Figurino: Juliana Prysthon e Verônica Julian
Edição: Estevan Santo


Elenco

Guta Stresser (Nina)
Myriam Muniz (Dona Eulália)
Sabrina Greve (Sofia)
Luíza Mariani (Alice)
Juliana Galdino (Ana) Milhem Cortaz (Carlão)
Guilherme Weber (Arthur)
Abrahão Farc (Velho)
Wagner Moura (Cego)
Selton Mello (Namorado de Ana)
Renata Sorrah (Prostituta)
Lázaro Ramos (Pintor)
Matheus Nachtergaele (Pintor)
entre outros

Sinopse

Nina (Guta Stresser) é uma jovem de sensibilidade agudíssima e mente fragilizada, que procura meios de sobrevivência numa metrópole desumana. A proprietária do apartamento onde mora, Dona Eulália (Myriam Muniz), uma velha mesquinha e exploradora, parece ter prazer em esmagar a vontade da sua inquilina exaurida. Em meio aos desenhos que faz em toda a parte e vivendo a agitada cena eletrônica de São Paulo, Nina mergulha nos fantasmas de seu inconsciente até acabar envolvida em um crime.

12/28/2006

HAMLET
Um diálogo com a arte teatral

(Texto "pensado" durante as aulas de Teoria Literária que tive a oportunidade de ministrar na UPF, em parceria com o Dr. Miguel R., e publicado no Jornal Dom Dia - 12/06)

Fabiano Tadeu Grazioli[1]

A obra Estética Teatral – Textos de Platão a Brecht (BORIE, M. ROUGEMONT, M. SCHERER, J. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004), é uma coletânea de textos teóricos sobre o teatro, retirados de todas as épocas e civilizações que nos legaram propostas úteis a respeito das questões teatrais. Nela encontramos uma referência ao dramaturgo William Shakespeare (1564-1616) que, embora não tenha deixado textos teóricos sobre o teatro, inseriu idéias e reflexões, a respeito desta arte, em diversos de seus textos teatrais.

Um desses textos é a peça Hamlet, príncipe da Dinamarca, escrita entre 1600 e 1602 e, seguramente, a tragédia de Shakespeare mais representada em todos os tempos. Não fossem as incontáveis montagens que o texto já teve, não apenas no teatro, mas no cinema, Hamlet é, ainda, o texto literário que mais foi interpretado, dos mais diversos modos e nas mais variadas áreas do conhecimento humano, como a psicologia, a sociologia, as ciências políticas, entre outras.
Os principais escritores e pensadores dos quatro séculos mais recentes deixaram suas impressões a respeito da história do infeliz príncipe da Dinamarca. A cena da peça que remete o leitor ou espectador à arte dramática é a segunda do segundo ato, onde Shakespeare usa o personagem Hamlet como diretor de cena e, por meio dele, transmite sua própria visão da arte de representar, na forma de “recado” aos atores, o qual nos serve até hoje.
A pedido de Hamlet, uma troupe, que era o “mambembe” da época, irá encenar, na cena seguinte, uma peça escrita pelo próprio Hamlet, denunciando o assassinato de seu pai. A seguir, apresentamos alguns fragmentos da cena onde Hamlet combina com os referidos atores os detalhes da encenação:

Entram Hamlet e alguns atores.
HAMLET: Tem a bondade de dizer aquele trecho do jeito que eu ensinei, com naturalidade. Se encheres a boca, como costumam fazer muitos dos nossos atores, preferira ouvir os meus versos recitados pelo pregoeiro público. Não te ponhas a serrar o ar com as mãos, desta maneira; sê temperado nos gestos, por que até mesmo na torrente e na tempestade, direi melhor, no turbilhão das paixões, é de mister moderação para torná-las maleáveis. Oh! Dói-me até ao fundo da alma ver um latagão de cabeleira reduzir a frangalhos uma paixão, a verdadeiros trapos, trovejar no ouvido dos assistentes, que, na maioria, só apreciam barulho e pantomima sem significado. Dá gana de açoitar o indivíduo que se põe a exagerar no papel de Termagante e que pretende ser mais Herodes do que ele próprio. Por favor, evita isso.
PRIMEIRO ATOR: Vossa Alteza pode ficar tranqüilo.
HAMLET: Também não é preciso ser mole demais; que a discrição te sirva de guia; acomoda o gesto à palavra e a palavra ao gesto, tendo sempre em mira não ultrapassar a modéstia da natureza, por que os exageros são contrários aos propósitos da representação, cuja finalidade sempre foi, e continuará sendo, como que apresentar o espelho à natureza, mostrar à virtude suas próprias feições, à ignomínia sua imagem e ao corpo e idade do tempo a impressão de sua forma. O exagero ou o descuido, no ato de representar, pode provocar riso aos ignorantes, mas causam enfado às pessoas judiciosas, cuja censura deve pesar mais em tua apreciação do que os aplausos de quantos enchem o teatro. Oh! Já vi serem calorosamente elogiados atores que, para falar com certa irreverência, nem na voz, nem no porte mostravam nada de cristãos, ou de pagãos, ou de homens sequer, e que de tal forma rugiam e se pavoneavam, que eu ficava a imaginar terem sido eles criados por algum aprendiz da natureza, e pessimamente criados, tão abominável era a maneira por que imitavam a humanidade.
PRIMEIRO ATOR: Quero crer que entre nós tudo isso está bem modificado.
HAMLET: Faze uma reforma radical! Que os truões não digam mais do que o que lhes compete, pois há deles que vão a ponto de rir, somente para provocarem riso aos parvos, até mesmo em passagens com algo merecedor de atenção. É vergonhoso, sobre revelar ambição estúpida por parte de quem se vale de semelhante recurso. Vai aprontar-te. (
http://virtualbooks.terra.com.br, acesso em 06/11/06).


Hamlet, nesta cena, ressalta as orientações que julga fundamentais para a interpretação satisfatória do texto teatral. O equilíbrio entre a expressão corporal e vocal, do mesmo modo que a interpretação realista, muito próxima da personagem, e a situação em que ela está envolvida, ao contrário de ser exagerada ou modesta demais, são assinaladas como princípios da encenação teatral. Trata-se de informações que, dependendo do estilo de interpretação em questão, continuam tendo significado e importância até os dias atuais.

O trânsito do personagem Hamlet pelas instâncias da arte cênica pode ser entendido como um reflexo da inserção de seu criador por distintas interfaces da linguagem teatral. A importância de Shakespeare na cultura universal está relacionada à sua dramaturgia, mas sua carreira de escritor iniciou em paralelo a de ator. Esse fato evidencia a preocupação que tinha com a encenação e revela um dramaturgo conhecedor desta arte. Além disso, a presença do grupo de artistas itinerantes no El-senhor (castelo da Dinamarca) assinala um fato corriqueiro na vida dos artistas da Companhia de Carmelo, grupo teatral que Shakespeare integrava, que era a realização de turnês habituais pelo interior de Londres.


[1] Mestrando em Letras – Leitura e formação do leitor (Universidade de Passo Fundo – UPF), Bolsista da CAPES - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. Diretor de teatro.

12/25/2006


Utopia e realidade do teatro na escola
(texto publicado no Jornal da Manhã - 06-12-06)

Fabiano Tadeu Grazioli[i]

Fala-se muito em teatro na escola. Esta instituição incorpora um discurso que nos transmite uma idéia de que o teatro está sempre presente, inclusive em suas diversas interfaces: a escola faz teatro, assiste a espetáculos teatrais e promove e inclui oficinas de teatro em sua programação e grade curricular. Contudo, de acordo com os diversos anos de atividades teatrais dedicados (também) à escola, e pesquisas realizadas na área, durante o mestrado, constatamos que se trata de um pseudodiscurso.


O sistema educacional aplicado nas escolas, de modo geral, não contempla, na realidade, a arte teatral como atividade curricular relevante. Ao contrário, conforme frisamos, no decorrer dos últimos anos, tem se falado muito na prática teatral escolar, mas muito pouco tem sido feito para que ela se efetive.

Infelizmente, esta arte ainda não foi incluída, propriamente, nos programas de ensino, devido a uma equivocada avaliação e entendimento de sua função e importância no desenvolvimento do aluno. Os currículos podem até prever a disciplina de Educação Artística ou Artes, no entanto, essa se limita ao precário desenvolvimento da arte plástica, negligenciando, desse modo, o desenvolvimento da arte musical, literária e teatral.

Esse equívoco se deve, principalmente, ao preconceito contra a arte dramática, o qual pode ser verificado, por exemplo, no desconhecimento, por parte das direções de escolas e dos profissionais da educação, quanto ao trabalho e a elaboração artística; técnicas e instrumentos de aprendizagem; tempo e espaço de criação; pesquisa e exercício intelectual; liberdade e disciplinas, inerentes a esta atividade. Basta analisarmos os programas dos cursos de pedagogia, que preparam os professores para as séries iniciais, nas quais se dá o momento mais propício para a introdução do aluno à arte cênica, pois, é o momento em que ele vai trocando o jogo imaginário (a brincadeira) pelo jogo realista (o princípio da encenação)[ii]. Os referidos programas não contemplam sequer uma cadeira específica de teatro-educação. Cremos que essa lacuna, na formação do professor, gera, a médio e longo prazo, o preconceito ao qual nos referimos.

Mesmo que alguém afirmasse que seria impossível incluir a arte dramática na escola, Paulo Gaiger, no entanto, no texto A Arte Dramática na Escola Urgente, publicado na Revista Ensino, nº 36, afirma que é melhor baní-la e ignorá-la, para, entre outras coisas, conservar a ignorância. Quando o autor se refere à ignorância, pensamos que ele se remete à impossibilidade de ampliar o universo do conhecimento; discutir símbolos e valores; repensar uma nova sociedade e, principalmente, à impossibilidade de reconhecer-se como ser criativo. Sem o desenvolvimento dessas capacidades, a escola estará contribuindo para a formação reduzida e simplificada do ser humano, sujeita ao preconceito e a coerção.

A arte dramática na escola deve compreender um conjunto de atividades bem mais abrangente do que montagem de uma peça teatral. Na formação do aluno, o teatro cumpre papel fundamental: o desenvolvimento da auto-estima, da inteligência e da socialização.
Podemos listar como alguns dos objetivos do teatro na escola: o conhecimento do corpo e as incontáveis possibilidades de movimento, deslocamento e gesto, do mesmo modo que o desenvolvimento do equilíbrio; a consciência do espaço e do tempo próprios e dos demais; desenvolvimento da percepção dos sentidos; exploração das capacidades vocais; o desvendar da beleza do jogo dramático e do contato com os outros; respeito às iniciativas próprias e dos demais; estudo e conhecimento dos fenômenos culturais e a interação e compreensão de uma linguagem artística que acompanha o homem desde os tempos mais remotos.


As demais disciplinas também recebem influência das atividades teatrais, por meio do rendimento mais satisfatório dos alunos e da descoberta e do amadurecimento da afetividade; das emoções e relações. O aluno se torna capaz de reagir e refletir; capaz de se manifestar e se expor; capaz de decodificar signos da linguagem teatral, não apenas na platéia de um espetáculo, mas nos diversos contextos em que ela pode aparecer. Trata-se de um trabalho lento e cuidadoso, mas, ao mesmo tempo, instigante e prazeroso, pois vai ao encontro da formação e do crescimento do ser humano. O descaso com a arte teatral é preocupante e extrapola o Sistema Educacional. Contudo, é este que tem o dever, prioritário, da iniciativa de reverter o quadro apresentado, mas não o faz, porque não reflete; não pesquisa e nem avança em linhas e estratégias pedagógicas contemporâneas e progressistas; nem sequer repensa a formação humana em sua complexidade afetiva, emocional, física, psicológica, intelectual.

[i] Mestrando em Letras – Leitura e formação do leitor (Universidade de Passo Fundo – UPF), Bolsista da CAPES - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. Professor do Centro Educacional Dom e do I. A. Barão do Rio Branco. Diretor de teatro. E-mail: tadeugraz@yahoo.com.br.
[ii] Sobre esse assunto, consultar SLADE, Peter. O jogo dramático infantil. São Paulo: Summus, 1978 ou LOPES, Joana. Teatro, Educação Tridimensional. Disponível em <www.cbtij.org.br.

12/22/2006

Natal!


Minha reflexão, neste Natal, fica por conta deste fragmento da crônica Então é Natal... , do escritor Kadu lago:

...O certo é que logo mais é noite. A noite de Natal. Os dois mil e poucos anos de CRISTO. Talvez seja isso. A fé de que DEUS se fez carne e pisou na terra. Quando pensamos em JESUS como nosso Senhor. Quando pensamos em seu nascimento como homem, por amor aos homens, sentimos que ainda somos humanos. Vivemos num mundo cercado de máquinas, mas ainda as dominamos. E o que precisamos é acreditar que podemos dominar a nós mesmos. Antes que chegue o dia primeiro de janeiro e a gente comece a pensar só no carnaval. Uns para esquecer o ano que passou. Alguns para se livrarem da saudade. Outros para deixarem de lado a nostalgia. E muita gente para esquecer a fome.

A crônica da integra pode ser lida no site do autor: www.kadulago.com.br

Para ilustrar, acima, uma foto do espetáculo Auto Luminoso de Natal, da Cia. Lumbra – POA.

E claro, reafirmo o meu desejo de um Feliz Natal, mesmo que já, lindamente expressos pelo texto e pela foto.

Feliz Natal!!!
Fabiano Tadeu Grazioli


(Que no próximo ano promete dar mais atenção aos amigos – virtuais e reais – pois não terá mais uma dissertação para escrever...)

Terrestre Esperança


Agora
me parece
que o homem
não está só.
Em suas mãos elaborou
como se fora um duro pão,
a esperança, a terrestre esperaça.
(Pablo Neruda)

Um Feliz Natal a todos e um Ano Novo repleto de Harmonia e uma
Renovada Esperança.

Fabiano Tadeu Grazioli

12/20/2006

Hilda Hilst: para amolecer os ossos ou endurecer a alma?


(Encontrei este poema de Hilda Hilst no orkut de Max Reinert)

VII

" Áspero é o teu dia.
E o meu também.
Inauguro ares e ilhas
Para que o teu corpo se conheça
Sobre mim, mas é áspera
Minha boca móvel de poesia,
Áspera minha noite
Porque nem sei se o canto há de chegar
No escuro labirinto em que te fazes,
Nessa rede de aço que te envolve,
Nesse fechar-se enorme onde te moves.
Trabalho tua terra cada dia
E não me vês.
O teu passo de ferro
Esmaga o que na noite foi minha vida.
E recomeço.
E recomeço."

Hilda Hilst
Trajetória Poética do Ser
1963/66

Pensando em Cássia Eller

Queremos Saber
Cássia Eller

Queremos saber,
O que vão fazer
Com as novas invenções
Queremos notícia mais séria
Sobre a descoberta da antimatéria
E suas implicações
Na emancipação do homem
Das grandes populações
Homens pobres das cidades
Das estepes dos sertões
Queremos saber, quando vamos ter
Raio laser mais barato
Queremos, de fato, um retrato
Retrato mais sério do mistério da luz
Luz do disco voador
Pra iluminação do homem
Tão carente, sofredor
Tão perdido na distância
Da morada do Senhor
Queremos saber, queremos viver
Confiantes no futuro
Por isso se faz necessário prever
Qual o itinerário da ilusão
A ilusão do poder
Pois se foi permitido ao homem
Tantas coisas conhecer
É melhor que todos saibam
O que pode acontecer