
Fabiano Tadeu Grazioli[1]
No panorama da obra de Erico Veríssimo, que completou centenário de nascimento em 2005, encontramos, datado de 1971, o romance Incidente em Antares, considerado um panfleto satírico contra o regime autoritário. No romance, uma vasta galeria de personagens vivencia diversos problemas sociais. Sete mortos insepultos, em especial, figuram no livro como representantes de tais problemas, classes e facções. O advogado corrupto, o bêbado envenenado pela mulher e o “anarquisindicalista” espanhol são alguns dos mortos que voltam à cidade de Antares para exigir dos vivos um sepultamento e promover um desmascaramento coletivo, que tem como palco o coreto da praça e como alvo os poderosos da cidade.
No panorama da obra de Erico Veríssimo, que completou centenário de nascimento em 2005, encontramos, datado de 1971, o romance Incidente em Antares, considerado um panfleto satírico contra o regime autoritário. No romance, uma vasta galeria de personagens vivencia diversos problemas sociais. Sete mortos insepultos, em especial, figuram no livro como representantes de tais problemas, classes e facções. O advogado corrupto, o bêbado envenenado pela mulher e o “anarquisindicalista” espanhol são alguns dos mortos que voltam à cidade de Antares para exigir dos vivos um sepultamento e promover um desmascaramento coletivo, que tem como palco o coreto da praça e como alvo os poderosos da cidade.
Entre os mortos está Erotildes, prostituta decadente, morta pela tuberculose. Depositada em seu esquife, é assim descrita pelo autor: “mulher descalça que aparenta mais de cinqüenta anos, duma magreza quase esquelética, metida num camisolão dum pano grosseiro de hospital de indigentes.” Vale acrescentar que “O Sr. Lázaro, [médico da cidade], alegava que na farmácia do hospital e em nenhuma outra da cidade existia estreptomicina. Prometeu mandar buscar o remédio fora, mas pelo visto esqueceu...” Na volta dos mortos, Erotildes reencontra sua colega Rosinha, que lhe conta detalhes de sua vida: “Ontem de noite uns meninos me agarraram à força e me levaram para um terreno baldio. Uns cinco ou seis... Primeiro me tiraram toda a roupa, me derrubaram, não houve porcaria que não fizeram comigo. Depois foram embora dando gargalhadas e não me deram um mísero vintém. (...) Alguns acho que conheço de vista. Meninos de boas famílias.” E no final do desabafo, pede à amiga morta: “Diz pra Deus que me dê uma boa morte, já que não me deu uma boa vida.”
A trajetória de ambas as personagens nos remete aos espancamentos de prostitutas de que temos sido informados pelos noticiários de diversas mídias. Os maus-tratos de Erotildes na sua morte e os de Rosinha na sua vida são da mesma natureza daqueles sofridos pelas prostitutas (ou pelas mulheres confundidas com prostitutas) nas últimas semanas. Que natureza seria esta? A falta de respeito, de atenção, de alteridade e a desvalorização do próximo.
Ficção e história, geralmente, se entrelaçam na obra de Erico Veríssimo. Contudo, no caso dos espancamentos é uma lástima que a literatura encontre o seu espelho na vida real! Em nosso país, a presença dos fatos sociais na ficção não basta para a conscientização dos indivíduos. É necessário que casos como os que estamos presenciando ganhem a mídia nacional e internacional para que os abusos presentes nas “brincadeiras” de jovens de classe média-alta ganhem espaço nos discussões nacionais.
Erico Veríssimo expõe, em suas memórias, que a função da literatura é a de lançar luz sobre os problemas do mundo. Contudo, tal função não se efetiva num país de não-leitores. Prova disso é que deveríamos ter aprendido, através da leitura literária, lições sobre humanidade e respeito ao próximo, pois as profissionais tidas como menos favorecidas não precisam de nossa piedade e sim de nosso respeito. Isso porque o respeito incondicional ao próximo elimina a existência de dominadores e dominados, de agressores e de agredidos, de estudantes de classe média e de prostitutas.
***Texto publicado no Jornal Bom Dia, edição de 14,15 e 16/07/2007, p. 04.
[1] Mestre em Letras – Estudos Literários (UPF), Diretor do Grupo Teatro de Gaiola – Erechim – RS.
6 comentários:
É realmente lastimável esses fatos que têm acontecido na nossa sociedade, no mundo! A ficção de 1971 vem à tona hoje na nossa realidade e muito pouco é feito para combater tamanha violência e desrespeito, o que nos preocupa e nos deixa indignados. Se todos cuidássemos melhor de nós mesmo e respeitássemos o próximo não existiria tanta injustiça como essa dos espancamentos de prostitutas.
Érico Veríssimo, na sua história um tanto sobrenatural, nos faz enxergar também que os problemas estão aí, bem próximos de nós e que, enfim, a leitura pode nos encaminhar a um outro modo de vida.
Sem dúvida seremos pessoas muito melhores se desde já fizermos parte do mundo literário!
É isso aí, um abraço professor.
Nandya Bigolin Fernandes - 3°PPV DOM
Bingo Nandya!
É isso mesmo! A leitura é um dos meios que podem ajudar o ser humano a crescer!!!
Abraço e boas férias!
depois do comentario da nandya fico até com vergonha de postar o meu comentario.. hahaha
mas é isso.. esses fatos inacreditaveis ocorrem até os dias de hoje e nao sei quando vao acabar, pois nao basta apenas nos coperarmos ajudarmos o proximo, respeitarmos etc..depende muito de todos os seres tornando isso uma coisa muuito dificil de se concretizar..
Mas temos q lembrar que somos brasileiros e nao desistimos nunca!
ahahaaha
abraço professor!!
Realmente é inaceitável o que está acontecendo na nossa sociedade, as pessoas estão perdendo a dignidade, passando por princípios, contribuindo cada vez mais com a violência e se não bastasse agora estão atacando prostitutas, que provavelmente estejam nessa vida por falta de recursos melhores. Acima de tudo são seres humanos e devem ser tratados como tal. Acredito que o caminho necessário é primeiro a conscientização individual de que independente da profissão por elas escolhidas devam ser respeitadas.
Abraço Professor.
Eduardo Bigolin - 3ºPPV DOM
Vergonhoso isso que aconteceu, uma mulher ser espancada por meninos de classe média-alta pq achavam que ela era uma prostituta?
Érico Veríssimo escreve isso em 1971 e inacreditavel que isso aconteça nos dias de hoje mas infelismente é a nossa realidade.
Se as pessoas se importasem mais com elas mesmas sem se acharem superiores as outras concerteza teriasmo um mundo melhor, mas isso não é o que acontece.
Abraço Professor.
Morgan 3º PPV DOM
Não é uma surpresa para nós ver como a sociedade lida com esses acontecimentos, pois se não aceitamos tomar medidas drásticas para por um ponto final viramos a página e deixamos quieto certos assuntos. Afinal, nós não superamos apenas nos conformamos com o mundo onde vivemos, onde devemos servir de exemplo. Erico Veríssimo não tem medo de nos mostrar que os problemas estão ai, ele fala tudo aquilo que não queremos que seja verdade.Com certeza,como a Nandya falo, a leitura nos mostra um outro modo de vida.
abraço professor .
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