1/20/2008

Resenha de uma obra muito especial

Em Literatura no curso de letras: um estudo centrado no leitor, Lionira Maria Giacomuzzi Komosinski propõe uma mudança de perspectiva no ensino da Literatura, repensando-o em um contexto no qual se apresenta bastante propício para fazê-lo, que é a formação de professores. A estratégia da autora em problematizar o ensino da Literatura nas Licenciaturas em Letras e de propor mudanças por meio de metodologias alternativas, denota sua preocupação em relação à formação dos professores de Literatura, promotores, por excelência, da leitura do texto literário.

A obra se apresenta dividida em três partes, as quais se repartem em seções e subseções, onde a autora aprofunda conceitos e idéias que se tornam elementares para o desenvolvimento do texto como um todo. A estrutura lembra em muito a organização dos trabalhos científicos e não seria diferente, uma vez que se trata da tese de doutorado em Teoria Literária, defendida pela autora na Pontifícia Universidade Católica do RS, em 1992.

Na primeira parte
[1], Komosinski apresenta uma síntese das principais teorias da Literatura. Para isso, parte dos pensadores gregos (Platão e Aristóteles), iniciadores dos estudos literários e chega ao Dialogismo de Bakhtin e as teorias de Wolfang Iser e Hans Jauss (estética da Recepção ou Teoria do Efeito Estético). Nesse percurso, a autora desenvolve os principais conceitos de cada corrente da teoria literária e leva o leitor a compreendê-los no contexto histórico em que nascem e se articulam. No decorrer desta explanação, o foco de atenção dos estudos literários se deslocará do autor, passará para a obra e depois recairá sobre o leitor, momento no qual Iser e Jauss propõem o estudo da obra literária a partir de sua recepção, ou seja, de sua leitura. Desse modo, embasada nos princípios dos estudos acima citados, aos quais acrescenta ainda o Cognitivismo de Piaget, a autora vai estabelecer novos parâmetros para a avaliação do texto literário e para a promoção do ensino da Literatura.

Na segunda parte
[2], por meio de uma pesquisa fenomenológica, é apresentado um mapeamento da realidade regional (norte do estado gaúcho), no que diz respeito às concepções sobre a Literatura e o seu ensino no meio universitário. No processo de pesquisa foram ouvidos professores e alunos das Licenciaturas em Letras, de oito Instituições de Ensino Superior. As perguntas lançadas vão ao encontro dos elementos evidenciados no fim da primeira parte da obra: “Em que consiste ensinar/estudar literatura? Por que ensinar/estudar literatura? O que é um texto literário de qualidade?” Após analisar as respostas, a autora, conhecedora da realidade do ensino e, em especial, do ensino da Literatura no estado e no país, confirma a hipótese de que: Enquanto as teorias apresentam a Literatura como um artefato dialógico, polifônico e aberto, a ser transformado em objeto estético pelo leitor, o ensino insiste em tratá-la como monológica, fechada; expressão única de uma verdade, detentora de um único sentido.[3]

Essa disparidade demonstra um atraso da prática em relação a teoria literária, pois enquanto esta prevê e reconhece o espaço do leitor no processo de leitura, o ensino da literatura ainda se concentra no autor ou na obra. Somando-se a isso, segundo Komosinski, o texto literário, além de não ser o objeto principal do estudo é usado como pretexto para o estudo de outros que não ele próprio. Dentre os resultados da pesquisa, as respostas referentes ao “bom texto literário” demonstram que é aquele consagrado pela elite pensante.

Comprovada a inadequação entre o que se “pensa” e o que se “faz”, em relação ao ensino da Literatura, a autora, na terceira parte da obra
[4], apresenta uma proposta alternativa para o ensino da Literatura. Antes, contudo, estabelece os contornos da escola que se quer, uma vez que, de pouco adiantaria uma proposta que não envolvesse o conceito de escola em sua amplitude. É nesse propósito que Komosinski afirma: “a escola deve ser o espaço privilegiado para o oferecimento de uma educação que possibilite o surgimento de cidadãos ativos e críticos, e não de simples trabalhadores. A escola deve ser o espaço da instrução e da cultura”.[5] A contribuição que a proposta de ensino, embasada na Estética da Recepção, traz à Universidade fica evidente quando a autora afirma: Na verdade não existem modelos de universidades para serem copiados, mesmo por que não existem universidades prontas, definitivas. Existem, isso sim, princípios norteadores do construir-se constantemente, característica da universidade. Um deles salienta a necessidade de que cada elemento nela integrado assuma seu papel de sujeito-leitor, de sujeito-autor.[6]

Komosinki entende que os cursos de Letras e, por extensão, a universidade, só formarão “cidadãos ativos e críticos” se, nesses espaços, se buscar constituir sujeitos-leitores e sujeitos-autores. Sua proposta se articula em torno dessa necessidade e, para isso, a alternativa apontada é a inserção da literatura marginal no âmbito dos estudos acadêmicos e, a partir dela, gradativamente, conduzir o aluno-leitor para a recepção da literatura dita “consagrada”. Portanto, a inserção da literatura marginal, nas aulas de Literatura, constitui-se num trabalho provisório e intermediário, que valoriza o sujeito-leitor que o aluno é, ao mesmo tempo em que o encaminha para aquele que ele pode (e deve) ser, do modo como ilustra Komosinski: Não são os contos eróticos publicados em revistas ainda ditas masculinas que mais contribuem para o desenvolvimento do leitor. (sendo o desenvolvimento resultado da aprendizagem, sabe-se que esses textos pouco têm a ensinar). Porém são eles que abrem caminho para a leitura de Gregório de Mattos, Mário Vargas Llosa, Flaubert, Lawrence. Parte-se do pornográfico individual para chegar ao erótico, que a sociedade tenta esconder, por ser uma via de liberação construída numa sociedade repressora.
[7]

A coesão da proposta da autora está na possibilidade, por ela apresentada, de se reservar as tradicionais divisões das disciplinas de Literatura em períodos ou em nacionalidades para o fim do curso, e de se voltar para o estudo da mesma a partir das diversas temáticas abordadas pelos textos literários, das diversas épocas e lugares. A transtextualidade passa a ser, na proposta apresentada, fator determinante no ensino, por ser o fenômeno em torno do qual o estudo da literatura poderia (e deveria) se organizar.

Enquanto tantos autores se detêm a analisar a realidade educacional e detectar suas lacunas Komosinski, ao olhar, sensivelmente, para esse contexto, se particulariza, por apresentar em Literatura no curso de letras: um estudo centrado no leitor uma proposta metodológica vigorosa, capaz de preencher os espaços e os desníveis do ensino da Literatura e da leitura. Afirma-se vigorosa, pois, de acordo com o que salientamos, inicialmente, a alternativa se centra, estrategicamente, na formação do professor-leitor, almejando, desse modo, mudanças significativas nos diversos níveis em que esses vierem a atuar.

[1] Essa parte se intitula O Ensino da Literatura.
[2] O título da segunda parte é Em Busca da Realidade Regional.
[3] KOMOSINSKI, Lionira Maria Giacomuzzi. A Literatura nos cursos de Letras: um ensino centrado no leitor. Erechim: EdiFAPES, 2001, P. 10.
[4] Uma proposta alternativa é o título da terceira parte.
[5] KOMOSINSKI, 2001, op. cit., p. 154.
[6] Ibidem, p. 157.
[7] Idibem, p. 168.
Texto publicado na Revista Voz das Letras, v. único, 6º artigo, nº 7, 2007.

1 comentários:

Nandya Bigolin Fernandes disse...

Oi professor, como está?
Estou passando só para dar um alô já que não nos encontramos mais na escola!

Um grande abraço, Nandya Bigolin Fernandes