6/28/2008

Sempre a minha maneira, inventando brincadeira: a propósito da menina Nita


Fabiano Tadeu Grazioli[1]

Ana Maria Machado é uma das principais responsáveis pelo lugar de destaque que hoje é ocupado pela literatura infantil e juvenil brasileira. Teve uma participação especial nesta conquista. Em mais de trinta anos de carreira, ela tem criado personagens inesquecíveis, enredos fascinantes, sempre inovando a linguagem e mantendo a alta qualidade literária em seus textos[2]. A autora publicou mais de uma centena de livros, traduzidos para diversos países. A história da menina Nita[3] é uma pequena amostra de seu trabalho, e pode ser encontrada em dois “formatos”: texto dramático e narrativo.

Nita é protagonista de uma viagem muito interessante. O espaço inicial da história é um quintal, onde crianças - Nita e seus amigos – brincam depois do jantar. A brincadeira escolhida por eles é Bento que bento é o frade, e o pedido do mestre é que cada um imite um bicho sem barulho...

Mas Nita parece querer encrenca o tempo todo, pois suas idéias são diferentes, inovadoras e, sobretudo, inquietantes, como a solução de Nita para o pedido do mestre: "- (...) Bem na hora que o Juca [o mestre da brincadeira] começou a falar, eu já estava fazendo bicho pau, ostra, marisco, cavalo dormindo, urso hibernando, jibóia jiboiando, tartaruga recolhida, tudo isso ao mesmo tempo". (...) Juca precisou explicar: "- Você não entendeu, Nita. Não era um bicho sem barulho. Era uma imitação sem barulho".

- Mas não foi isso que você disse – teimou ela. A brincadeira se repete várias vezes e Nita cria diversas situações parecidas com esta. Sem criar muito caso, Nita resolve sair pelo mundo, em busca de aventuras:

"- Que aventuras?

- Sei lá, se eu soubesse, não eram aventuras. Você já viu aventura programada, com hora marcada e lugar para acontecer?"

Sua primeira parada é na floresta, em um lugar diferente, habitado por bonecos de madeira, a família Prequeté. Entre os cinco bonecos que vivem ali não há limites, não há barreiras. Cada um faz o que quer. No início Nita acha legal, mas logo percebe que não é “bem assim” e lhes ensina regras fundamentais para a convivência de um grupo: saber ouvir, saber falar e saber chegar a um consenso. O reconhecimento dos novos amigos vem em seguida: "- Puxa, Nita, que boas idéias você tem! Vamos logo juntar todos os prequetés para conversar isso. Aprendemos uma boa coisa com você."

“A floresta acaba e um lindo campo começava”. Chegando ao campo, Nita avista uma construção conjunta onde quatro trabalhadores constroem uma casa em mutirão, em clima de festa e cooperação: "- Esta aqui é a Zefa, minha mulher. E eu me chamo João. Nós estávamos querendo uma casa nova, mais jeitosinha pra morar. Então chamamos os vizinhos e os amigos para ajudar. Assim a construção vai logo indo em frente". Mas Nita questiona os trabalhadores: - “Que história é essa? Como é que vocês trabalham de graça e ainda fazem festa?” Eles então explicam à menina: "- É por que hoje ele está precisando de nós. Outro dia fui eu que precisei de todos pra me ajudarem a capinar uma plantação. E outro dia foi o Antônio que tinha que fazer um conserto no açude e chamou todo mundo. Sempre a gente corre e ajuda por que cada dia é um que precisa."

De volta ao quintal, a menina questionadora repassa aos colegas o que aprendeu na viagem, que sentindo sua falta, começaram a ter idéias parecidas com as dela.

Nita, na história, vive uma infância produtiva, com características essenciais para uma protagonista de narrativa para jovens leitores. Ideologicamente a obra se vale em favor do mundo infantil, questionador, desbravador e inquieto por excelência, repleto de idéias de transformação e mudança. Contudo a narrativa não se impõe no sentido de forçar o leitor a pensar de determinada maneira, mas, sim, a faz perceber depois de acompanhar Nita pela sua caminhada.

E, se os críticos nos dizem que os heróis dos textos infantis devem ser ágeis, primar por idéias de mudança, questionadores e desacomodados, Nita é um grande exemplo deles. O adulto que entrar em contato com o texto também vai se encontrar com Nita, vai refletir e concluir que possui uma criança inquieta e questionadora dentro de si. E, se ela estiver escondida, perceberá que foi o mundo (adulto), do qual agora ele faz parte, que a inibiu por meio de pequenas vontades reprimidas, como a de dizer "faremos", quando se queria mesmo dizer "fazeremos".

Observação: Texto publicado no Boletim de Literatura Infantil e Juvenil O Balainho (34), da UNOESC Joaçaba.


[1] Mestre em Letras - Estudos Literários (Leitura e Formação do Leitor) pela Universidade de Passo Fundo/RS (2007). Especialista em Metodologia do Ensino da Literatura pela Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões – Campus de Erechim/RS (2004). Autor do livro Teatro de se Ler: o texto teatral e a formação do leitor. Diretor de Teatro.
[2] MACHADO, Ana Maria. Bento que bento é o frade. Ilustrações de Cláudio Martins. São Paulo: Salamandra, 2003, p. 47. Todas as demais citações são retiradas desta obra.
[3]
Curiosamente, tal história se encontra no texto teatral No país dos Prequetés (MACHADO, Ana Maria. Hoje tem espetáculo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984) e no texto narrativo Bento que bento é o frade (MACHADO, Ana Maria. Bento que bento é o frade. São Paulo: Salamandra, 2003).

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