
Nita é protagonista de uma viagem muito interessante. O espaço inicial da história é um quintal, onde crianças - Nita e seus amigos – brincam depois do jantar. A brincadeira escolhida por eles é Bento que bento é o frade, e o pedido do mestre é que cada um imite um bicho sem barulho...
- Mas não foi isso que você disse – teimou ela. A brincadeira se repete várias vezes e Nita cria diversas situações parecidas com esta. Sem criar muito caso, Nita resolve sair pelo mundo, em busca de aventuras:
"- Que aventuras?
- Sei lá, se eu soubesse, não eram aventuras. Você já viu aventura programada, com hora marcada e lugar para acontecer?"
Nita, na história, vive uma infância produtiva, com características essenciais para uma protagonista de narrativa para jovens leitores. Ideologicamente a obra se vale em favor do mundo infantil, questionador, desbravador e inquieto por excelência, repleto de idéias de transformação e mudança. Contudo a narrativa não se impõe no sentido de forçar o leitor a pensar de determinada maneira, mas, sim, a faz perceber depois de acompanhar Nita pela sua caminhada.
E, se os críticos nos dizem que os heróis dos textos infantis devem ser ágeis, primar por idéias de mudança, questionadores e desacomodados, Nita é um grande exemplo deles. O adulto que entrar em contato com o texto também vai se encontrar com Nita, vai refletir e concluir que possui uma criança inquieta e questionadora dentro de si. E, se ela estiver escondida, perceberá que foi o mundo (adulto), do qual agora ele faz parte, que a inibiu por meio de pequenas vontades reprimidas, como a de dizer "faremos", quando se queria mesmo dizer "fazeremos".
Observação: Texto publicado no Boletim de Literatura Infantil e Juvenil O Balainho (34), da UNOESC Joaçaba.
[1] Mestre em Letras - Estudos Literários (Leitura e Formação do Leitor) pela Universidade de Passo Fundo/RS (2007). Especialista em Metodologia do Ensino da Literatura pela Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões – Campus de Erechim/RS (2004). Autor do livro Teatro de se Ler: o texto teatral e a formação do leitor. Diretor de Teatro.
[2] MACHADO, Ana Maria. Bento que bento é o frade. Ilustrações de Cláudio Martins. São Paulo: Salamandra, 2003, p. 47. Todas as demais citações são retiradas desta obra.
[3] Curiosamente, tal história se encontra no texto teatral No país dos Prequetés (MACHADO, Ana Maria. Hoje tem espetáculo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984) e no texto narrativo Bento que bento é o frade (MACHADO, Ana Maria. Bento que bento é o frade. São Paulo: Salamandra, 2003).
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