12/12/2008

A propósito de Pipistrelo das mil cores, de Zélia Gattai

Fabiano Tadeu Grazioli
Para Mara Pilotto, que me apresentou Zélia Gattai, nos preparativos para a 11ª Feira do Livro de Erechim/RS

Foi um dia, não faz muito tempo,
que este caso aconteceu:
armados até os dentes, saíram
três comparças à caça no Pantanal,
três bandidos sem tamanho.

Esses são os versos iniciais do livro Pipistrelo das mil cores[1], de Zélia Gattai, que teve sua sexta edição no ano passado. Eles já anunciam que o leitor inicia uma narrativa escrita em versos. A obra aponta para a maldade, a ganância e a exploração em relação ao meio ambiente e aos animais, e para as conseqüências dessas atitudes.

No primeiro capítulo, intitulado O monstro do Pantanal três caçadores, após andarem dia e noite na mata, encontram um "sítio jamais atingido por caçador ou turista", e ficam boquiabertos, deslumbrados, comovidos, "não com a beleza que viam / mas com o dinheiro a ganhar". No local se deparam com um animal que não conseguem identificar, que possui asas, as quais mudam de cor constantemente. Chamam-no de Monstro do Pantanal. Ele é capturado, levado até a cidade. Os caçadores organizam um leilão para vendê-lo. Mas o leilão foi interrompido por um grupo de ambientalistas e os caçadores foram presos em flagrante.Pipistrelo-I.jpg

E o nosso pobre animal?
O que fizeram com ele?
Único exemplar da terra,
patrimônio nacional,
a fim de ser estudado,
cuidado e preservado
foi levado de avião
para o Rio de Janeiro.

No zoológico carioca o animal era a principal atração, e coube ao tratador italiano, de apelido Pomarola, batizá-lo de Pipistrelo (que quer dizer morcego em sua língua materna). Suas asas estavam roxas, cor da tristeza, tristeza que se acabou quando um bando de crianças alegres desobedecendo sua professora, resolveram alimentá-lo. Foram elas que descobriram que ele falava com as cores, uma vez que presenciaram suas asas roxas transformarem-se em rosa-claro e rosa-choque, cores da alegria. Contudo, o capítulo sintetizado neste parágrafo, intitulado Pipistrelo de mil cores, acaba em tom de tristeza, pois os pais das crianças proibiram que voltassem ao zoológico: "Pipistrelo nunca mais! Acabou-se o que era doce!"

A batalha por Pipistrelo, último capítulo da obra, mostra ao leitor a disputa pelo animal tão exótico, que se trava, nas palavras da autora "entre os de cá e os de lá": os de cá, os brasileiros e os de lá, os estrangeiros, os "donos do mundo", que habitam o outro lado do mar. Mas nem todos os "de cá" são honestos, há entre eles alguém que está a serviço do inimigo. E movidos por interesses sujos e muito dinheiro conseguiram que a venda de Pipistrelo fosse realizada. As crianças, em suas casas, proibidas de irem ao zoológico assistiam pela televisão aos preparativos para o transporte do animal até o porto. Desobedecendo aos pais, logo após a aula elas organizaram uma ação, com auxílio de Pomarola para ajudar o amigo:

Vamos todos, minha gente!
Vamos gritar todos juntos,
Para acordar Pipistrelo!

Com a força de todos, despertaram Pipistrelo do sono costumeiro (aquela sexta gostosa que se tira depois do almoço) oportunidade em que seria transportado. Acordado, fez muita força para se soltar das amarras, e mais uma vez a voz de quem lhe queria livre lhe servia de motivação. E assim elevou-se "qual um foguete no céu / num vôo espetacular" e em seguida voltou, sobrevoando as crianças, para agradecer e se despedir. Foi então que Cecília, uma das crianças, percebeu que as asas do animal estavam "brancas imaculadas", "brancas cor de liberdade". E ele voltou para os confins do Pantanal.

Zélia Gattai constrói um texto onde sua crença ideológica fica evidente. Além disso seu texto se apresenta "ecologicamente correto", à medida que alerta o leitor para os riscos que corremos de ver destruídos espécies de animais típicos de nosso país, pela ganância e pela especulação estrangeira. É importante destacar que na obra se encontram equilibrados o tema (que tantas vezes já transformou os textos literários em discurso repetitivo e pedante) e a proporção artística/poética. Pipistrelo das mil cores é poesia de qualidade que se anuncia já no formato escolhido - os versos - e se consolida na transfiguração do tema (necessário e atual) em belas palavras, com tom de história contada, que logra de imediato atenção e envolvimento do leitor.

As ilustrações de Pinki Wainer são a tradução da poesia de Zélia Gattai em aquarelas lindíssimas. Nelas formato e cores se complementam e tornam a obra, em seu aspecto geral, um convite à fruição (tomada aqui como sinônimo da interação entre pintura e espectador) e à leitura. E no caso desta obra, a primeira não é simples pretexto para a segunda: tão interessante quanto ler é a experiência da fruição das ilustrações. Contudo, mais interessante ainda é ler e observar, e buscando a combinação desses dois aspectos se indignar muitas vezes: teria surgido antes o texto ou a ilustração?

1. GATTAI, Zélia. Pipistrelo das mil cores. Ilustrações de Pinky Wainer. Rio de Janeiro: Record, 2007. As citações utilizadas no texto foram retiradas desta edição.

Observação: Texto publicado inicialmente na seção Ricos e Rabiscos sobre Livros e Leitura do Portal Cultura Infância http://www.culturainfancia.com.br

1 comentários:

LAURO disse...

grande Fabiano.
fica aqui um grande abraço

lauro monteiro